Arquivo | Fevereiro, 2013

Quem quer um “DJ da Carochinha”?

17 Fev

Portugal é um país fantástico, onde vive um povo fantástico.

O português nasce com um gene especial, que o faz estar atento ao que se passa “lá fora”, para copiar e adaptar (geralmente mal) e desenrascar-se a fazer seja o que for que lhe dê dinheiro, se possível sem ter muito trabalho.

Há quem nasça com um talento natural para as artes, para as letras ou para a música.

Gostos não se discutem e a par com virtuosos que passam mais tempo no Conservatório do que em casa, há autodidactas que só de ouvido são capazes de tocar um instrumento.

Não quer dizer que tocam bem, mas tocam para quem os quer ouvir. Uns de borla, outros a pagar.

Toda a gente gosta de ouvir música, mas poucos são os que sabem juntar diferentes estilos e interpretes e transforma-los em algo harmonioso e agradável para os sentidos, que os faça sentirem-se felizes e lhes dê uma vontade incontrolável de dançar.

Esse talento para produzir uma obra, muitas vezes magistral, a partir de milhares de músicas, é o resultado de muito empenho, investimento e investigação.

Primeiro nasceu o conceito: o DJ era o “curioso” que coleccionava música e organizava festas na garagem (ou na cave) dos pais, para gáudio dos amigos e colegas de escola.

Depois surgiu a profissão: a divulgação da música gravada era feita nas rádios, mas os grandes êxitos começavam a passar nas discotecas e as editoras discográficas aperceberam-se disso e davam-nos em primeira mão, os discos que ainda não estavam à venda.

Quantas vezes nós cobríamos os rótulos dos discos de vinil, para impossibilitar a descoberta do autor do “hit” que fazia as loucuras da pista, sempre que o púnhamos a tocar!

Depois… bom, depois surgiram os “bedroom dj’s” ou “dj’s de trazer por casa”, que nunca foram extintos e, pelo contrário, evoluíram para uma nova espécie: o “digital dj”.

Continuaram a ser amadores, ainda que mais evoluídos e com a vida mais facilitada desde que os fabricantes inventaram o botão “sync”.

Esta nova espécie é recente. Tem, quando muito, meia dúzia de anos.

Só conheço um caso de rendição total às novas tecnologias, protagonizado por um bom amigo meu, excelente DJ e profissional, que há mais de 10 ou 12 anos começou a usar o “BPM Studio”, na sua versão profissional, com o respectivo interface e comando personalizado.

Ainda hoje usa, embora tenha evoluído para o “Virtual DJ” pela facilidade de manuseamento de clipes de vídeo.
Mas não deixa de ser um óptimo profissional.

Àparte esta brilhante excepção, o “digital dj” tornou-se acessível a qualquer miúdo de 6 anos com um “Magalhães” e uma ligação à internet (para sacar mp3), permitindo que todo o português engenhoso e desenrascado se transformasse de um momento para o outro em DJ de casamentos.

Como esta nova “espécie” de DJ não faz a mais pequena ideia do que é sê-lo, nem dos investimentos contínuos que os verdadeiros profissionais têm de fazer (quer em música legal e original, quer em equipamentos de qualidade), pratica preços altamente convidativos com a promessa de um dia inesquecível.

O que acontece é que geralmente são tão maus, que realmente se tornam inesquecíveis pela negativa.

Mas, como “solo se vive una vezou os noivos só se casam uma vez (de cada vez), apesar da má qualidade e péssimo desempenho, ei-los sempre na primeira linha a promover  as suas novas “habilidades digitais” e a convencer mais alguns incautos para lhes entregarem a animação de um dia que deverá ser extraordinariamente especial nas suas vidas.

Por isso é que o português se habituou a pagar pouquinho, porque nunca tem a certeza de estar perante um profissional esforçado, ou um “habilidoso digital” desenrascado.

Na dúvida, metem-se todos no mesmo saco e tratam-se como se fossem todos iguais.

Infelizmente, este não é um problema exclusivamente português.

Ou será que os “genes” portugueses  têm alguma coisa a ver com isso?

É que no Brasil também sofrem do mesmo mal, ao ponto de lançarem campanhas nas redes sociais contra os “Fake DJ’s”, ou incompetentes auto-proclamados DJ’s.

Mas, lá com o cá, há diferenças.

A grande diferença é que os brasileiros copiaram o modelo de trabalho americano e quando apresentam um orçamento para a animação de um casamento, demarcam-se completamente do panorama português:

– O DJ profissional, não leva equipamento próprio. Entrega aos noivos o “rider” técnico e no dia do casamento aparece na hora do baile só com os phones e a música. Os noivos têm de contratar o aluguer do equipamento de som e de luz a empresas especializadas, que se encarregam da montagem, desmontagem e manutenção do mesmo.

Assim, se alguma coisa “pifar”, a culpa não é do DJ.

– O DJ profissional é contratado por um número de horas fixo, geralmente 4  ou 5 horas. Se a festa se prolongar, debitam horas extra e ninguém discute, nem acha isso estranho. Ninguém trabalha “sem limite de horas”. E ninguém passa o dia a “meter música ambiente”.

Essa responsabilidade compete aos espaços onde realizam o evento, que dispõem sempre de equipamentos para difundir música por toda a área, de forma discreta e eficaz.

– O cachet de um DJ profissional anda à volta de $1.500,00 (dólares), nas condições acima mencionadas.

O Brasil, apesar da elevada taxa de crescimento, é um país com uma imensa “classe média-baixa/baixa”.

Por isso é que, lá como cá, proliferam cada vez mais os “Fake DJ’s”, que fazem casamentos baratos e “únicos”.

“Únicos” porque se os mesmos noivos casassem outra vez, de certeza que não os contratavam.

Baratos, porque praticamente não têm investimento a fazer.

Nos EUA há centenas de empresas de animação de casamentos e milhares de DJ’s.

Mas todos seguem o mesmo modelo de trabalho, talvez porque, para serem credíveis, têm de pertencer a alguma associação profissional que impõe regras e padrões de qualidade.

Por cá, um profissional tem de ter equipamento próprio, ou emprestado, pois caso contrário não trabalha em lado nenhum. E, além disso, tem de o transportar, montar, configurar, testar, desmontar e transportar de volta, quando a festa acabar.

Por cá dá-se mais valor a pormenores da decoração, em que quase ninguém repara e de certeza ninguém se lembra passado um ano, ou às “ofertas” dos noivos (que variam desde o doce típico da terra, feito em quantidades industriais, até ao porta-chaves “souvenir”, que vai parar ao fundo da primeira gaveta que encontram  quando chegarem a casa), do que ao investimento na animação, que acabará por ditar o êxito (ou o fracasso) da festa.

Há tempos, um amigo dizia-me: em Portugal, os Mobile DJ, ou “DJ’s de eventos”,  são como os mecânicos de automóveis: cada um acha-se melhor e leva mais barato que o vizinho, para conseguir mais clientes.

E, enquanto vigorar esta “desunião”, o mercado vai sendo infestado pelos “habilidosos digitais”, que cobram preços ridículos e geralmente estragam a festa… e o mercado.

Quem quer um “DJ da Carochinha”, que trabalha baratinho e se faz passar por profissional?

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Quando for grande quero ser DJ (parte 3)

1 Fev

Jimmy Savile

Doze pessoas. Seis casais.
Nem imaginavam, mas naquele dia de 1943, em Leeds, estavam a participar no primeiro baile do mundo, animado por um DJ.
O jovem Jimmy Savile, então com cerca de 18 anos, não encarou o acto de seleccionar musica para uma audiência como algo criativo, mas sim como uma oportunidade de negócio, face ao potencial que sentiu existir nos discos gravados.
Nesse dia teve uma audiência de doze pessoas. Pouco tempo depois abarrotava, literalmente, o club Mecca Locarno com 1300. Tinha nascido o “clubbing” pelas mãos daquele que é considerado o primeiro DJ inglês, que em 1990 foi ordenado cavaleiro pela rainha de Inglaterra, tornando-se Sir Jimmy Saville, o disc-jockey que começou por ser mineiro, lutador de wresttling, e ciclista.
Desde essa gloriosa época, muito se evoluiu e, sem dúvida, as décadas de 80 e 90 foram o expoente máximo do clubbing em Portugal e no mundo.
Os anos 80 foram, também, determinantes na emergente indústria de casamentos, banquetes e festas privadas, ao introduzir o DJ como animador, no lugar das bandas e grupos de baile.
Líderes de bandas famosas, como Jerry Perell e outros, fundaram empresas de DJing, como a “NY Rhythm DJ Entertainers” , onde aplicaram conceitos até aí exclusivos da performance ao vivo.
Os seus conhecimentos e experiência sobre participação de audiências, selecção de repertório e interacção com o público, determinaram uma radical mudança de hábitos, que passou a encarar o DJ como uma mais-valia, combinando a classe e elegância das tradicionais orquestras e bandas, com a versatilidade e variedade das gravações musicais, nos casamentos mais exclusivos e conceituados.

EDMcrowd
A década de 90 viu surgir as primeiras Raves, baseadas no acid house, onde a garrafinha de água era vendida a preço de champagne francês.
O conceito de Rave está na origem de profundas alterações na dance music, na imagem do DJ e no marketing associado.
De repente, em Portugal, o até então quase ilustre desconhecido DJ, passou a ser um nome badalado.
Saíu da “cabine” de quatro paredes, para verdadeiros púlpitos sobranceiros à pista.
Deixou de “espreitar” por uma nesga na parede, para passar a ser visto e admirado por todos.
Passou a mostrar todas as habilidades técnicas, desde usar 3 “pratos”, até incluir “caixas de ritmo” e instrumentos ao vivo.
Foi a época das “aberturas de pista”. Quem não estava presente na “abertura”, lamentava-se toda a noite.
Todo o staff das discotecas ensaiava durante o dia o que iria apresentar e representar para os clientes. Começaram as festas temáticas.
Havia coreógrafos e responsáveis por guarda-roupa. Os shows de raios laser (que naquele tempo eram refrigerados a água) obrigaram os light-jockeys a criar verdadeiros espectáculos de luz e cor. Discotecas como a Swing, no Porto, conduzidas pelo génio de João Lima, ficaram para sempre na memória de quem teve o privilégio de viver aquelas noites de magia.
Por força deste movimento, surgiram os primeiros grupos de dançarinos/animadores, dos quais os “Alcantara Dancers” se revelaram pioneiros.
Tanta e tão súbita exposição fez surgir o verdadeiro “combustível para DJ’s”, o promotor, ou manager, que passou a gerir a imagem das novas estrelas da noite.
Esta radical alteração de imagem veio produzir uma geração de Superstars que, de um momento para o outro começaram a ser disputados por todos os clubes e discotecas.
O DJ passou a ser também um catalisador de pessoas. Quanto mais badalado, mais fãs tinha e quanto mais fãs tinha, mais desejado era pelas discotecas que o disputavam.
Como consequência os cachets subiram vertiginosamente e o conceito de DJ “residente” começou a ser relegado para segundo plano, dando origem a uma imensa oferta de free-lancers.
Em Portugal, a última década do século XX viu surgir nomes incontornáveis da dance scene, como Luís Leite, mentor do LL Project, em parceria com Rui da Silva, que recebeu o primeiro Disco de Ouro atribuído a um DJ, pelo sucesso de vendas “Alcantara-Mar The House of Rhythm”, DJ Vibe, Mário Roque, DJ Jiggy, Luis XL Garcia, Zé Black, Ruizinho e muitos, muitos outros.
Os anos 90 ditaram também a “morte” do vinil como produto comercial.
Começou o reinado do CD e a era digital deu os primeiros passos com a criação da norma MPEG-1, pelo Moving Picture Experts Group, de onde derivou o MPEG-1 Layer 3, mais vulgarmente conhecido por MP3, que viria a revolucionar a forma com o se ouve musica no século XXI.
O género Trance, que durante anos tinha proliferado no underground alemão, fez a sua aparição também nos anos 90, apresentando-se como uma das formas musicais mais dominantes, devido à sua forte componente hipnótica e repetitiva.
Em 1998 foi apresentado o primeiro leitor autónomo de MP3, o “Eiger Labs MPMan F10” e o “Final Scratch” fez a sua aparição na BE Developer Conference, como o primeiro sistema a controlar ficheiros digitais de MP3 através de discos de vinil gravados com “timecode” .
Esta primeira década do século XXI viu surgir uma nova geração de DJ’s, orientada para um intenso uso das tecnologias, que colocou a arte do DJing ao alcance de qualquer um.
Hoje, para se ser DJ, já não é preciso ter um amor imenso pela música, conhecer profundamente estilos e tendências, ter “feeling” e destreza técnica.
Basta ter um qualquer software de virtual djing, como o Traktor, umas “malhas” compradas no Beatport (ou sacadas nos torrents) e não há mistura que falhe, nem batida fora de tempo.
O que não há, a maior parte das vezes, é o sentido do “bom gosto” e a capacidade para criar um set capaz de conduzir o público ao clímax. Isso, só os verdadeiros DJ’s conseguem fazer e esses não necessitam de instrumentos da era digital para “ficar bem na fotografia”.
Subitamente começamos a deparar com nomes conhecidos de outras andanças, que se apresentam agora como “DJ’s”.
São, particularmente, ex-figuras da moda que, como em todas as actividades mediáticas atingiram o limita da carreira, e qualquer um que consiga entrar nas boas graças dos grandes managers e promotores de eventos.
Qualquer um pode (e quer) ser DJ.
Basta que tenha uma imagem vendável ou que seja um nome conhecido da “movida” ou do jetset, ou ex-concorrente de um qualquer concurso de TV.
E, literalmente, não é preciso ter qualquer jeito para o DJing.
Para “eles”, é condição necessária passar muitas horas por dia no ginásio, a definir bem a massa muscular do corpinho, que exibem do alto da cabine, para gáudio do público feminino.
Quanto a “elas”, começa a sentir-se um certo “vento de leste” que traz as já conhecidas “DJane’s”. As famosas DJ´s que actuam em topless.
Com os olhos fixos nos atributos destas ocupantes de cabine, não há ouvidos que apreciem a música que põem a tocar, ou que se apercebam de que o set já veio gravado de casa (ou da casa de um DJ a sério, que há quem por dinheiro faça tudo, até dar fama aos outros).
Felizmente ainda há muitos verdadeiros DJ’s (homens e mulheres) que trabalham à moda antiga: com dois pratos e uma mesa de mistura (o microfone, já era).

JCF
(Maio/2010)