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Quando for grande quero ser DJ (parte 3)

1 Fev

Jimmy Savile

Doze pessoas. Seis casais.
Nem imaginavam, mas naquele dia de 1943, em Leeds, estavam a participar no primeiro baile do mundo, animado por um DJ.
O jovem Jimmy Savile, então com cerca de 18 anos, não encarou o acto de seleccionar musica para uma audiência como algo criativo, mas sim como uma oportunidade de negócio, face ao potencial que sentiu existir nos discos gravados.
Nesse dia teve uma audiência de doze pessoas. Pouco tempo depois abarrotava, literalmente, o club Mecca Locarno com 1300. Tinha nascido o “clubbing” pelas mãos daquele que é considerado o primeiro DJ inglês, que em 1990 foi ordenado cavaleiro pela rainha de Inglaterra, tornando-se Sir Jimmy Saville, o disc-jockey que começou por ser mineiro, lutador de wresttling, e ciclista.
Desde essa gloriosa época, muito se evoluiu e, sem dúvida, as décadas de 80 e 90 foram o expoente máximo do clubbing em Portugal e no mundo.
Os anos 80 foram, também, determinantes na emergente indústria de casamentos, banquetes e festas privadas, ao introduzir o DJ como animador, no lugar das bandas e grupos de baile.
Líderes de bandas famosas, como Jerry Perell e outros, fundaram empresas de DJing, como a “NY Rhythm DJ Entertainers” , onde aplicaram conceitos até aí exclusivos da performance ao vivo.
Os seus conhecimentos e experiência sobre participação de audiências, selecção de repertório e interacção com o público, determinaram uma radical mudança de hábitos, que passou a encarar o DJ como uma mais-valia, combinando a classe e elegância das tradicionais orquestras e bandas, com a versatilidade e variedade das gravações musicais, nos casamentos mais exclusivos e conceituados.

EDMcrowd
A década de 90 viu surgir as primeiras Raves, baseadas no acid house, onde a garrafinha de água era vendida a preço de champagne francês.
O conceito de Rave está na origem de profundas alterações na dance music, na imagem do DJ e no marketing associado.
De repente, em Portugal, o até então quase ilustre desconhecido DJ, passou a ser um nome badalado.
Saíu da “cabine” de quatro paredes, para verdadeiros púlpitos sobranceiros à pista.
Deixou de “espreitar” por uma nesga na parede, para passar a ser visto e admirado por todos.
Passou a mostrar todas as habilidades técnicas, desde usar 3 “pratos”, até incluir “caixas de ritmo” e instrumentos ao vivo.
Foi a época das “aberturas de pista”. Quem não estava presente na “abertura”, lamentava-se toda a noite.
Todo o staff das discotecas ensaiava durante o dia o que iria apresentar e representar para os clientes. Começaram as festas temáticas.
Havia coreógrafos e responsáveis por guarda-roupa. Os shows de raios laser (que naquele tempo eram refrigerados a água) obrigaram os light-jockeys a criar verdadeiros espectáculos de luz e cor. Discotecas como a Swing, no Porto, conduzidas pelo génio de João Lima, ficaram para sempre na memória de quem teve o privilégio de viver aquelas noites de magia.
Por força deste movimento, surgiram os primeiros grupos de dançarinos/animadores, dos quais os “Alcantara Dancers” se revelaram pioneiros.
Tanta e tão súbita exposição fez surgir o verdadeiro “combustível para DJ’s”, o promotor, ou manager, que passou a gerir a imagem das novas estrelas da noite.
Esta radical alteração de imagem veio produzir uma geração de Superstars que, de um momento para o outro começaram a ser disputados por todos os clubes e discotecas.
O DJ passou a ser também um catalisador de pessoas. Quanto mais badalado, mais fãs tinha e quanto mais fãs tinha, mais desejado era pelas discotecas que o disputavam.
Como consequência os cachets subiram vertiginosamente e o conceito de DJ “residente” começou a ser relegado para segundo plano, dando origem a uma imensa oferta de free-lancers.
Em Portugal, a última década do século XX viu surgir nomes incontornáveis da dance scene, como Luís Leite, mentor do LL Project, em parceria com Rui da Silva, que recebeu o primeiro Disco de Ouro atribuído a um DJ, pelo sucesso de vendas “Alcantara-Mar The House of Rhythm”, DJ Vibe, Mário Roque, DJ Jiggy, Luis XL Garcia, Zé Black, Ruizinho e muitos, muitos outros.
Os anos 90 ditaram também a “morte” do vinil como produto comercial.
Começou o reinado do CD e a era digital deu os primeiros passos com a criação da norma MPEG-1, pelo Moving Picture Experts Group, de onde derivou o MPEG-1 Layer 3, mais vulgarmente conhecido por MP3, que viria a revolucionar a forma com o se ouve musica no século XXI.
O género Trance, que durante anos tinha proliferado no underground alemão, fez a sua aparição também nos anos 90, apresentando-se como uma das formas musicais mais dominantes, devido à sua forte componente hipnótica e repetitiva.
Em 1998 foi apresentado o primeiro leitor autónomo de MP3, o “Eiger Labs MPMan F10” e o “Final Scratch” fez a sua aparição na BE Developer Conference, como o primeiro sistema a controlar ficheiros digitais de MP3 através de discos de vinil gravados com “timecode” .
Esta primeira década do século XXI viu surgir uma nova geração de DJ’s, orientada para um intenso uso das tecnologias, que colocou a arte do DJing ao alcance de qualquer um.
Hoje, para se ser DJ, já não é preciso ter um amor imenso pela música, conhecer profundamente estilos e tendências, ter “feeling” e destreza técnica.
Basta ter um qualquer software de virtual djing, como o Traktor, umas “malhas” compradas no Beatport (ou sacadas nos torrents) e não há mistura que falhe, nem batida fora de tempo.
O que não há, a maior parte das vezes, é o sentido do “bom gosto” e a capacidade para criar um set capaz de conduzir o público ao clímax. Isso, só os verdadeiros DJ’s conseguem fazer e esses não necessitam de instrumentos da era digital para “ficar bem na fotografia”.
Subitamente começamos a deparar com nomes conhecidos de outras andanças, que se apresentam agora como “DJ’s”.
São, particularmente, ex-figuras da moda que, como em todas as actividades mediáticas atingiram o limita da carreira, e qualquer um que consiga entrar nas boas graças dos grandes managers e promotores de eventos.
Qualquer um pode (e quer) ser DJ.
Basta que tenha uma imagem vendável ou que seja um nome conhecido da “movida” ou do jetset, ou ex-concorrente de um qualquer concurso de TV.
E, literalmente, não é preciso ter qualquer jeito para o DJing.
Para “eles”, é condição necessária passar muitas horas por dia no ginásio, a definir bem a massa muscular do corpinho, que exibem do alto da cabine, para gáudio do público feminino.
Quanto a “elas”, começa a sentir-se um certo “vento de leste” que traz as já conhecidas “DJane’s”. As famosas DJ´s que actuam em topless.
Com os olhos fixos nos atributos destas ocupantes de cabine, não há ouvidos que apreciem a música que põem a tocar, ou que se apercebam de que o set já veio gravado de casa (ou da casa de um DJ a sério, que há quem por dinheiro faça tudo, até dar fama aos outros).
Felizmente ainda há muitos verdadeiros DJ’s (homens e mulheres) que trabalham à moda antiga: com dois pratos e uma mesa de mistura (o microfone, já era).

JCF
(Maio/2010)

Quando for grande quero ser DJ (Parte 1)

22 Jan

Não é preguiça de escrever novo material. É divulgação.
Há 3 anos escrevi uma série de artigos com o título genérico “Quando for grande quero ser DJ” para a revista Noite.Pt que os publicou em Março, Abril e Maio de 2010.
Como os direitos de autor são meus (nunca estabeleci qualquer tipo de acordo de cedência de direitos, nem recebi um tusto que fosse pela publicação), aqui vai o primeiro de uma série de 3 artigos com a minha visão e memória do tempo em que ninguém sabia o nome do DJ.
Quem já leu na revista, pode aguardar pela próxima semana até eu escrever alguma coisa nova.
Quem não leu, tem agora a oportunidade de ficar a conhecer uma faceta minha que desconhecia.
E, se gostarem, um “Like”zito não custa nada e alimenta o ego.

 

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Quando for grande, quero ser DJ

“Quando for grande, quero ser DJ”, não é uma frase muito ouvida.
Pela minha parte, acho que nunca a ouvi da boca de algum miúdo.
Mas, canso-me de ouvir (e de ler): “o DJ fulano de tal desde muito jovem que se lançou no mundo da música, tendo iniciado a sua carreira (?) há (4 ou 5) anos.”
No mínimo, acho estranho que alguém “desde muito jovem” se inicie no DJing, porque legalmente só aos 16 anos é que podem entrar em discotecas, mas também sei que há quem tenha uma “visão alargada” e jure a pés juntos que, ao puto de 13 anos a precisar urgentemente de clerasil, toda a gente dava pelo menos 18 e por isso é que o deixou entrar.
Depois, em (4 ou 5) anos (ou até 8, ou 10) dificilmente se constrói uma carreira de DJ.
Quando muito, dão-se a conhecer no meio e vão ganhando alguma experiência, quando têm a sorte de conseguir tocar (de borla) para outro público que não os amigos da escola.
Virtuosos, há poucos. Talentosos, vai-se encontrando. Trocadores de discos, são aos montes, graças à facilidade tecnológica com que, hoje em dia, qualquer um se auto-denomina DJ.
Felizmente nem sempre foi assim.
Quando, em 1909, Ray Newby se tornou no primeiro Disc Jockey de rádio, ao transmitir com regularidade discos gravados com temas interpretados por Caruso, na pequena cidade de Stockton, na California, ninguém imaginava que, 100 anos mais tarde, desse origem a uma actividade que movimenta milhões (de pessoas e às vezes de dólares, ou euros, conforme o caso).
Foi em 1935 que o comentador de rádio americano Walter Winchell usou pela primeira vez o termo “disc jockey” (aglutinação de “disc” no sentido de disco gravado, com “jockey” ou aquele que opera uma máquina) para se referir ao locutor de rádio Martin Block, considerado como um dos primeiros superstar do ramo.
Enquanto os ouvintes aguardavam avidamente por notícias sobre o desenrolar do célebre rapto do bebé Lindbergh, Block fazia tocar discos gravados e criava a ilusão de que estava a transmitir a emissão a partir de um salão de baile onde as principais bandas da época tocavam ao vivo.
O termo “disc jockey” apareceu, pela primeira vez impresso na revista Variety em 1941.
Tinha nascido o DJ.
Mas o mundo ainda tinha de esperar até 1947 para ver surgir o primeiro DJ de pistas de dança:
Ron Diggins, o pai da primeira “cabine de DJ”, que baptizou de “Diggola”.
Era uma verdadeira obra de Art Deco, equipada com 2 gira-discos de 78 rpm, misturador de sons, microfone, luz, amplificador com 30W de potencia e 10 altifalantes.
Demorou seis semanas a ser construída, com tábuas de caixão, pois naquele tempo de pós-guerra havia muita dificuldade em arranjar madeira prensada, adequada ao projecto.
Teve tanto sucesso que, nos anos seguintes, construiu mais seis Diggolas e viu-se forçado a assinar um acordo com o sindicato dos músicos, que o impediu de “tocar” nos grandes salões da época, por receio de afastar completamente as bandas que costumavam animar os bailes naquele tempo.
Foi, no entanto, a forma talentosa como seleccionava a música, que fez dele um ícone incontornável, que terminou a sua carreira em 1995, depois de ter tocado em mais de 20.000 festas.
Nos EUA e em Inglaterra, era assim.
Em Portugal, não era bem assim.
Além de estarmos “orgulhosamente sós”, estávamos praticamente na idade média da tecnologia, quando os americanos já pisavam a lua.
Nos finais dos anos 60, época em que, como todo o adolescente que se preza, comecei a ir a bailes de carnaval e afins, o DJ, pura e simplesmente, não era.
A música era preparada em longos serões, que antecediam esses grandiosos bailes, por aficionados que seleccionavam os sucessos da época, geralmente interpretados pelas grandes orquestras de Frank Pourcell ou James Last, sem esquecer o famoso saxofone de Fausto Papetti, e os gravavam em longas bobines de fita magnética que iriam fazer as delícias de quantos tivessem a sorte de estar presentes.
Nesse tempo só me contentava em “ver” e admirar a destreza com que aqueles “técnicos de som” criavam as fitas mágicas, que iriam debitar música durante horas a fio, graças a um amigo do meu pai, que trabalhava na Emissora Nacional.
Foi o impulso necessário para passar a dedicar o meu tempo livre (e o que roubava aos estudos) a azucrinar a paciência das empregadas da discoteca Arnaldo Trindade, da Valentim de Carvalho e da discoteca Santo António.
O ritual era sempre o mesmo: começava por perguntar pelas “novidades” (que chegavam cá com pelo menos um ano de atraso), seguia para os escaparates onde, pacientemente, procurava as musicas que tinha ouvido na rádio, fazia uma pilha de “singles” e esperava que uma das cabines ficasse livre, para finalmente ir ouvir os sons que faziam vibrar a juventude dos princípios dos anos 70.
As gravações nacionais, produzidas, quase todas, pela Fabrica de Discos Rádio Triunfo, eram um monumento ao ruído estático, ou “ovos estrelados” como nós dizíamos, mas como não havia melhor, de vez em quando lá comprava um 45, muito bem escolhido, para acrescentar à colecção.
A época era de “slows” e quanto mais melosos, melhor.
As festas, essas, eram todas as semanas, aos sábados e domingos à tarde, pois as miúdas raramente podiam sair à noite.
Nessas matinés, a um slow sucedia-se outro, reproduzido num gira-discos Philips, que ficava a cargo do desafortunado que não tinha “par”.
Afortunadamente, calhou-me uma série de vezes ficar de serviço ao gira-discos (só havia um), ou porque a miúda não tinha podido sair de casa, ou por não ter arranjado miúda para ir à festa, o que me foi “aguçando” o engenho para criar majestosas selecções musicais… para os outros dançarem bem agarradinhos.
De vez em quando lá metia umas “rockadas” para os fazer sacudir a tensão, mas o que dava era mesmo o “slow”.
Mesa de mistura, só no centro de controle espacial da Nasa. Pré-escuta, era a nossa memória auditiva, de tantas horas passadas a ouvir os mesmos discos.
Mas fazíamos sets fantásticos com a musica dos The Who, Jethro Tull, Status Quo, Wallace Collection, Deep Purple ou Santana.
A discoteca de referência daquele tempo era a D. Urraca, e a Batô começava a dar os primeiros passos, mas disso falarei numa próxima vez.

JCF
(Março/2010)