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Quem quer um “DJ da Carochinha”?

17 Fev

Portugal é um país fantástico, onde vive um povo fantástico.

O português nasce com um gene especial, que o faz estar atento ao que se passa “lá fora”, para copiar e adaptar (geralmente mal) e desenrascar-se a fazer seja o que for que lhe dê dinheiro, se possível sem ter muito trabalho.

Há quem nasça com um talento natural para as artes, para as letras ou para a música.

Gostos não se discutem e a par com virtuosos que passam mais tempo no Conservatório do que em casa, há autodidactas que só de ouvido são capazes de tocar um instrumento.

Não quer dizer que tocam bem, mas tocam para quem os quer ouvir. Uns de borla, outros a pagar.

Toda a gente gosta de ouvir música, mas poucos são os que sabem juntar diferentes estilos e interpretes e transforma-los em algo harmonioso e agradável para os sentidos, que os faça sentirem-se felizes e lhes dê uma vontade incontrolável de dançar.

Esse talento para produzir uma obra, muitas vezes magistral, a partir de milhares de músicas, é o resultado de muito empenho, investimento e investigação.

Primeiro nasceu o conceito: o DJ era o “curioso” que coleccionava música e organizava festas na garagem (ou na cave) dos pais, para gáudio dos amigos e colegas de escola.

Depois surgiu a profissão: a divulgação da música gravada era feita nas rádios, mas os grandes êxitos começavam a passar nas discotecas e as editoras discográficas aperceberam-se disso e davam-nos em primeira mão, os discos que ainda não estavam à venda.

Quantas vezes nós cobríamos os rótulos dos discos de vinil, para impossibilitar a descoberta do autor do “hit” que fazia as loucuras da pista, sempre que o púnhamos a tocar!

Depois… bom, depois surgiram os “bedroom dj’s” ou “dj’s de trazer por casa”, que nunca foram extintos e, pelo contrário, evoluíram para uma nova espécie: o “digital dj”.

Continuaram a ser amadores, ainda que mais evoluídos e com a vida mais facilitada desde que os fabricantes inventaram o botão “sync”.

Esta nova espécie é recente. Tem, quando muito, meia dúzia de anos.

Só conheço um caso de rendição total às novas tecnologias, protagonizado por um bom amigo meu, excelente DJ e profissional, que há mais de 10 ou 12 anos começou a usar o “BPM Studio”, na sua versão profissional, com o respectivo interface e comando personalizado.

Ainda hoje usa, embora tenha evoluído para o “Virtual DJ” pela facilidade de manuseamento de clipes de vídeo.
Mas não deixa de ser um óptimo profissional.

Àparte esta brilhante excepção, o “digital dj” tornou-se acessível a qualquer miúdo de 6 anos com um “Magalhães” e uma ligação à internet (para sacar mp3), permitindo que todo o português engenhoso e desenrascado se transformasse de um momento para o outro em DJ de casamentos.

Como esta nova “espécie” de DJ não faz a mais pequena ideia do que é sê-lo, nem dos investimentos contínuos que os verdadeiros profissionais têm de fazer (quer em música legal e original, quer em equipamentos de qualidade), pratica preços altamente convidativos com a promessa de um dia inesquecível.

O que acontece é que geralmente são tão maus, que realmente se tornam inesquecíveis pela negativa.

Mas, como “solo se vive una vezou os noivos só se casam uma vez (de cada vez), apesar da má qualidade e péssimo desempenho, ei-los sempre na primeira linha a promover  as suas novas “habilidades digitais” e a convencer mais alguns incautos para lhes entregarem a animação de um dia que deverá ser extraordinariamente especial nas suas vidas.

Por isso é que o português se habituou a pagar pouquinho, porque nunca tem a certeza de estar perante um profissional esforçado, ou um “habilidoso digital” desenrascado.

Na dúvida, metem-se todos no mesmo saco e tratam-se como se fossem todos iguais.

Infelizmente, este não é um problema exclusivamente português.

Ou será que os “genes” portugueses  têm alguma coisa a ver com isso?

É que no Brasil também sofrem do mesmo mal, ao ponto de lançarem campanhas nas redes sociais contra os “Fake DJ’s”, ou incompetentes auto-proclamados DJ’s.

Mas, lá com o cá, há diferenças.

A grande diferença é que os brasileiros copiaram o modelo de trabalho americano e quando apresentam um orçamento para a animação de um casamento, demarcam-se completamente do panorama português:

– O DJ profissional, não leva equipamento próprio. Entrega aos noivos o “rider” técnico e no dia do casamento aparece na hora do baile só com os phones e a música. Os noivos têm de contratar o aluguer do equipamento de som e de luz a empresas especializadas, que se encarregam da montagem, desmontagem e manutenção do mesmo.

Assim, se alguma coisa “pifar”, a culpa não é do DJ.

– O DJ profissional é contratado por um número de horas fixo, geralmente 4  ou 5 horas. Se a festa se prolongar, debitam horas extra e ninguém discute, nem acha isso estranho. Ninguém trabalha “sem limite de horas”. E ninguém passa o dia a “meter música ambiente”.

Essa responsabilidade compete aos espaços onde realizam o evento, que dispõem sempre de equipamentos para difundir música por toda a área, de forma discreta e eficaz.

– O cachet de um DJ profissional anda à volta de $1.500,00 (dólares), nas condições acima mencionadas.

O Brasil, apesar da elevada taxa de crescimento, é um país com uma imensa “classe média-baixa/baixa”.

Por isso é que, lá como cá, proliferam cada vez mais os “Fake DJ’s”, que fazem casamentos baratos e “únicos”.

“Únicos” porque se os mesmos noivos casassem outra vez, de certeza que não os contratavam.

Baratos, porque praticamente não têm investimento a fazer.

Nos EUA há centenas de empresas de animação de casamentos e milhares de DJ’s.

Mas todos seguem o mesmo modelo de trabalho, talvez porque, para serem credíveis, têm de pertencer a alguma associação profissional que impõe regras e padrões de qualidade.

Por cá, um profissional tem de ter equipamento próprio, ou emprestado, pois caso contrário não trabalha em lado nenhum. E, além disso, tem de o transportar, montar, configurar, testar, desmontar e transportar de volta, quando a festa acabar.

Por cá dá-se mais valor a pormenores da decoração, em que quase ninguém repara e de certeza ninguém se lembra passado um ano, ou às “ofertas” dos noivos (que variam desde o doce típico da terra, feito em quantidades industriais, até ao porta-chaves “souvenir”, que vai parar ao fundo da primeira gaveta que encontram  quando chegarem a casa), do que ao investimento na animação, que acabará por ditar o êxito (ou o fracasso) da festa.

Há tempos, um amigo dizia-me: em Portugal, os Mobile DJ, ou “DJ’s de eventos”,  são como os mecânicos de automóveis: cada um acha-se melhor e leva mais barato que o vizinho, para conseguir mais clientes.

E, enquanto vigorar esta “desunião”, o mercado vai sendo infestado pelos “habilidosos digitais”, que cobram preços ridículos e geralmente estragam a festa… e o mercado.

Quem quer um “DJ da Carochinha”, que trabalha baratinho e se faz passar por profissional?

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