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Quando for grande quero ser DJ (parte 2)

27 Jan

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“Dois gira-discos e um microfone”.

Era assim que, há 40 anos, se designava o equipamento básico dos primeiros DJ’s.

A primeira mesa de mistura, concebida expressamente para o uso de DJ’s, a famosa CMA-10-2DL, foi projectada em 1969 por Rudy Bozak (e mais tarde clonada por marcas famosas como a Rane) e foi a base para o desenvolvimento das técnicas que ainda hoje são usadas pela maioria dos profissionais.

Foi por essa altura que Francis Grasso, o DJ residente do Club Sanctuary,  em Nova York, começou a fazer as primeiras experiências com a técnica que hoje conhecemos por “acertar batidas” (beatmatching) e desenvolveu o “slip-cueing”, a arte de segurar um disco num ponto preciso, enquanto o prato roda, e largá-lo no momento em que se pretende uma passagem por “corte”, sem flutuações de velocidade.

1974, foi o ano do nascimento do que, ainda hoje, é o standard da indústria: o Technics SL-1200, por muitos considerado o melhor e mais fiável gira-discos do mundo.

Infelizmente, naquele tempo,  as novidades tecnológicas tardavam imenso a chegar a Portugal. Às vezes nem sequer chegavam. E, quando chegavam, custavam verdadeiras fortunas.

Por isso, dependíamos de arrojados “contrabandistas”, que em França, Inglaterra e Alemanha, obtinham as mais recentes novidades da electrónica aplicada às discotecas, e as faziam chegar ao nosso cantinho à beira mar plantado e recentemente revolucionado

O DJ, esse, praticamente não o era.

Trabalhávamos em verdadeiras “cabines”, com 4 paredes e um rasgão, tipo janela minúscula, que nos permitia ver a pista. Para “sentirmos” o som, tínhamos de sair e dar uma volta pela sala, além de estarmos atentos aos empregados de mesa (naquele tempo não havia “apanha-copos”) que nos faziam sinal para dizer se o som estava demasiado alto (ou baixo).

Em Portugal não havia superstars. Não havia freelancers, não havia managers, não havia agenciamento, nem havia cachets milionários. Ás vezes, nem cachet havia. E quase ninguém sabia o nome do Disc Jockey, excepto os amigos mais chegados e os clientes habituais.

Havia alguns tipos verdadeiramente dedicados, que amavam a música e aproveitavam todos os momentos e oportunidades para mostrar do que eram capazes e, sobretudo, fazer autênticos milagres com os poucos recursos existentes.

Nunca me hei-de esquecer da primeira vez que me vi sozinho na cabine do antigo P.A. (em Angeiras-Matosinhos), com 2 gira-discos Philips e uma caixa plástica com um grande botão de rodar, fixa no balcão, virada para o meu umbigo, que servia para “alternar” o som, entre os dois pratos.

Não havia pré-escuta, nem sequer auscultadores (o termo “phones” passou a usar-se muito mais tarde). Apontávamos a agulha às primeiras espiras e deixávamos rolar. As mudanças de tom na superfície do disco indicavam-nos os pontos de “break”, que tínhamos de aproveitar para fazer a mistura, que mais não era do que baixar a agulha do disco que ia entrar e rodar o tal botão 360 graus, para a esquerda ou para a direita, conforme o caso.

Ainda no P.A., tive o meu baptismo com uma verdadeira mesa de mistura de 4 canais e pré-escuta, que um amigo do antigo dono da discoteca tinha comprado na “Lido Music” em Paris.

Arranjar música  era, igualmente, problemático.

Não bastavam as edições nacionais. Além de fracas, chegavam sempre com meses de atraso.

Quem ia a uma discoteca, esperava ouvir os mesmos êxitos que faziam vibrar as pistas da Europa e dos Estados Unidos.

O “Disco Sound” tinha surgido em força e para ficar.

Este novo “som”, com influências Soul e Funk, rapidamente ocupou os lugares cimeiros nas charts americanas e europeias, dando origem à reconversão dos clubs de dança em discotecas.

Ao contrário dos Clubs dos anos 60, cuja oferta musical era baseada na performance de bandas ao vivo, as discotecas começaram a usar DJ’s, que seleccionavam e misturavam os grandes êxitos da época, de forma contínua e sem os célebres “intervalos” para os músicos descansarem.

Nós, os pioneiros do DJing em Portugal, para arranjarmos os hits do momento, tínhamos de recorrer a Espanha, onde eu ia todas as semanas, procurar as melhores “malhas”, e onde passava horas a ouvir pilhas de discos e a “destrocar” pesetas.

Perdi a conta às vezes em que saí de Vigo directamente para a discoteca, num percurso que nem sequer sonhava com auto-estradas ou SCUTS, só pelo prazer de pôr a tocar em primeira mão o “Supernature” do Cerrone, ou o “Don’t let me be misunderstood” na versão dos Santa Esmeralda.

O verão de 1982 veria o início do declínio do Disco Sound, e o surgimento de um novo tipo de entertainer: o VJ, ou Video Jockey, pela mão da MTV, que tinha iniciado as suas transmissões um ano antes.

O Video Jockey era o jovem apresentador que, de forma irreverente, e às vezes até insolente, introduzia os videoclips que divulgavam as charts semanais.

Nesse mesmo ano dá-se o que é considerado por muitos como o “Big Bang” do áudio digital, com o surgimento dos primeiros leitores de CD e respectivas edições de música.

É ainda na década de 80 que nasce a nossa bem conhecida “House Music”, assim denominada por ter sido ouvida pela primeira vez numa discoteca de Chicago, chamada “Warehouse Club”, onde o residente, o DJ Frankie Knuckles, misturava velhos clássicos do Disco Sound com Eurosynth Pop (a que nós, na gíria, chamávamos Euro-Cheese).

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Por essa altura, em Nova York, surge um novo estilo que tem como mentor Larry Levan, o DJ residente do célebre Paradise Garage, que é baptizado, exactamente, de “Garage”.

Foram as influências do House de Chicago e do Garage de NY que determinaram o aparecimento do Techno, em Detroit, uma sonoridade puramente electrónica, que combinava elementos de ambas as correntes e se distanciava totalmente das raízes do Disco Sound.

O ano de 1985 vê também surgir a primeira edição da Winter Music Conference (WMC), em Fort Lauderdale, Florida, que entretanto se mudou para Miami e, ano após ano, se tornou na “Meca” dos Disc Jockeys de todo o mundo.

Por cá, a década de 80 viu nascer discotecas míticas, como a “Mirasol”, extensão do Hotel Mirasol, na Praia de Miramar, onde fui o primeiro DJ residente, a incontornável Swing, a Twins e muitas mais que fazem parte das nossas memórias, de que falarei para a próxima.

JCF
(Abril/2010)